quinta-feira, 7 de abril de 2011

A partir de uma Lágrima

Há alguns anos, pesquisadores descobriram que uma substância, presente na lágrima humana, poderá ajudar no combate ao vírus da AIDS. Curioso saber que a lágrima tem poderes terapêuticos! Antes dos cientistas, os apaixonados já haviam descoberto isto. Chorar é ingrediente básico para viver um grande amor.

Os amores são como as plantas: têm que ser regados. A lágrima é a substância que rega o amor. Mas quem diria que uma doença que já fez com que tanta gente chorasse, pudesse esconder o segredo de sua cura justamente na lágrima, sua companheira por muitos anos?

Na terapia médica, o uso da lágrima é ainda uma hipótese. Não há certezas e elas precisam ser encontradas. Mas no universo do amor as coisas já estão bem adiantadas. A lágrima, desde muito tempo, rega e faz crescer o sentimento. Diante das lágrimas as palavras são insuficientes - em sua presença, é preciso silenciar.
Um dia, talvez, ainda descubram que há diferentes tipos de lágrimas. As que são frutos da alegria, nascidas de uma grande surpresa, uma declaração de amor, um encontro inesperado, um gesto de perdão; e as provenientes da tristeza: um adeus, uma partida, um amor perdido, uma mágoa que não se desfaz.

Certamente, quando isto acontecer, a descoberta trará consigo um problema (como sempre!): onde serão colocados os nascedouros de lágrimas como a saudade, um pôr de sol ou a nostalgia? Estes se encontram justamente na divisa entre a tristeza e a alegria. Talvez seja porque a linha que divide a tristeza e a alegria guarde a essência do ser humano - este pode ser o motivo de ninguém ser absolutamente alegre ou inteiramente triste. Vivemos no limite da tristeza com a alegria.
A ternura deste limite faz as pessoas mais ou menos humanas. Ternura é isto: quando a saudade, colorida pela triste beleza de um pôr de sol faz companhia à nostalgia. É uma poção que faz brotar as lágrimas.

Com ternura as pessoas se apaixonam e passam a viver a beleza das lágrimas. Na paixão todos se tornam ternos. Mas esta ternura também revela que os sentimentos que abriga não podem jamais perecer. Esta revelação faz sonhar e o sonho é bom porque ele está para além do tempo. Já reparou que nos sonhos o dia nunca termina e as noites nunca chegam? Não há quem sonhe com o anoitecer! O sonho é maior que o tempo.
Por isso, ternura e sonho guardam os segredos dos apaixonados. Ternura para além do tempo, acima de qualquer idade. Aí nasce uma poção, um conceito, que ninguém sabe explicar ao certo mas todos conseguem sentir: e-terna-idade, eternidade.

E só de pensar que tudo nasceu a partir de uma lágrima...
Paulo Roberto Pedrozo Rocha

domingo, 3 de abril de 2011

Sobre Criar e Desejar...

Há nas narrativas da criação, encontradas nos capítulos iniciais do livro do Gênesis, algo de especial. Algo que está além da compreensão empreendida pela razão, capaz de simular na própria fé um dado novo.

Lemos nos textos que há oito obras da criação, divididas em seis dias de trabalho. Mas logo no início há um detalhe especial: "No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra porém era sem forma e vazia e havia trevas sobre a face do abismo. O Espírito de Deus pairava sobre as águas."

O vazio informe, o espírito que pairava sobre o caos, o desenho espelhado de um Deus que brinca com este vazio, sua imagem...coisas que produzem um silêncio aterrorizante.

Pairar, voar vagarosamente. O Espírito de Deus brincava com o silêncio inicial. Era o primeiro gesto da criação, que não estava medido em dias, estava além do tempo.

Santo Agostinho, santo de minha devoção por ser tão pecador quanto os santos devem ser, se incomodava com este fato: que água seria esta que atraía o Espírito do criador? Como conhecer as trevas antes da própria origem da luz?

Uma palavra rompe o silêncio. "E disse Deus: haja luz. E houve luz." A palavra passa a criar. Há uma íntima relação entre a palavra e a ação criadora de Deus. Tudo se faz pela palavra e sem ela nada do que foi feito se fez.

O mesmo Agostinho sugere que a matéria, que passa a surgir a partir da palavra de Deus, é o pensamento do criador que toma forma: por isso a criação é bela. O pensamento de Deus é belo e é traduzido no gesto de criar. Com o recurso da palavra, Deus passa a compôr o mundo, todo o universo. O criador compõe o mundo na forma de um poema, que dá forma bela ao pensamento.
 
Assim como um poema é mais do que a beleza de sua estilística, a criação é mais do que a simples beleza da forma: o poema para ser de fato poesia precisa transmitir o sentimento, precisa fazer amor com as palavras, é preciso que ninguém fique indiferente após ouví-las.

O texto poético da criação reserva ainda outra curiosidade: enquanto as trevas mencionadas no início não passam de contraposição à luz, os astros vêm demonstrar que há a luz da noite, ou seja, que mesmo em meio à noite é possível orientar-se.

Este é mais um sentido do poema: quem ama a noite tem apenas uma luz diferente do dia, nem melhor nem pior, apenas diferente. E os filhos da noite, amantes da lua, serão tão bem guiados quanto os filhos do amanhecer, amantes do sol.

Por fim, sirvo-me de um poema chinês, tão antigo e verdadeiro como os nossos melhores textos. Nele, a história da criação era contada da seguinte maneira:

"Dizia-se que a criação não havia sido completada até que morreu um ser chamado Desejo. Do crânio deste Desejo, formou-se uma abóboda celeste, o globo como o conhecemos. De sua pele, surgiu a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras e de seu sangue os rios e os oceanos. De seu cabelo veio toda a vegetação e sua respiração tornou-se em vento e brisa. Sua voz em trovão; seu olho direito se transformou na lua e o esquerdo no sol. De sua saliva e suor veio a chuva, e dos vermes que se alimentaram de seu corpo surgiu toda a humanidade."

Você não suspeitava que somos todos filhos do Desejo? Um Desejo que não nominamos, que se transforma num poema, devir da existência e que nunca, nunca nos abandona dando-nos esta sensação de eterna insatisfação...pois é, somos filhos do Desejo.

Paulo Roberto Pedrozo Rocha 

domingo, 13 de junho de 2010

Preferir o Beijo ao Sofrimento!

Com a beleza que só a triteza e a paixão sabem decantar, a tragédia romântica Romeu & Julieta, escrita por Shakespeare, comove a todos que assistem sua exibição ou lêem seus versos. No final, a desesperada Julieta, amante de todas as horas e habitante do devaneio dos sonhos de Romeu, acorda em meio a uma trama. Vê seu amado morto. Bebera veneno.

Há um gesto de desespero. Quer morrer também. Lança seu corpo sobre o de Romeu e beija-lhe os lábios. Imagina que neles ainda poderá restar um pouco de veneno, capaz de trazer a felicidade, a felicidade da partida.

A poesia é bela, a trama também. Na imagem do poeta o beijo é sinal de alegria e de dor. Do beijo, tão sonhado em outros tempos, como sinal de alento e encanto, advém agora a única possibilidade de carregar a felicidade: o amor que é inerente à morte.

Mas não é de morte que falam os romances. Eles falam de eternidade. Os beijos são próprios do infinito; eles povoam os lugares de eternidade, entre o amor e a morte. São sempre especiais.

O valor de um beijo está em saber diferenciá-lo das coisas cotidianas. Como sabemos, os beijos são eternos. As coisas eternas têm que marcar, passam além da barreira do tempo, ultrapassam o esquecimento. O mundo das coisas eternas é sombrio e misterioso. Assim o descrevia o poeta Robert Frost: "...há mundos sombrios e misteriosos, tais como os desertos que escondem em si os segredos das moradas dos deuses." Nele, habitam segredos e mistérios: beijos e sofrimentos.

Curioso notar que o sofrimento é um dos mais nobres habitantes do mundo das coisas eternas. Nos poemas e romances, o sofrimento tem que parecer eterno, para sempre, senão não tem valor. A magia está justamente em transformar a eternidade do sofrimento em possibilidade de um fim. Quando se vê uma chance para que o sofrimento tenha fim, poeticamente a humanidade faz habitar neste lugar (também de coisas eternas) um outro infinito: chamam-no de Esperança. A esperança é isso: saber que o encantdor sofrimento pode ter um fim.

Esperança não combina com certeza. A certeza é dura, fria, acabada. Ninguém tem certeza da esperança. Todos sabem que ela existe, mora na possibilidade do fim do sofrimento, mas como é uma possibilidade, tem o seu valor em poder fazer sonhar, vislumbrar com olhos do coração a razão de sua existência.

O final de Romeu & Julieta acaba sendo muito especial: mistura o beijo com o sofrimento, duas das mais notórias eternidades.

Desde então há pessoas que trazem as marcas destas coisas eternas. São como beijos e sofrimentos, são especiais, são eternas. Fazem poemas porque não sabem (ou não podem) falar. Elas têm em comum o ensinamento dos poetas, como este de Ricardo Reis: "Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias...porque a realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos..."

São pessoas especiais, que nos ensinam preferir o beijo ao sofrimento, mas que quase sempre terminam com os dois.

Paulo Roberto Pedrozo Rocha

domingo, 25 de abril de 2010

Porque a Vida não Basta!

– Que horas são? Perguntou Pessoa.

É quase meia-noite, respondeu Álvaro de Campos, a melhor hora para encontrá-lo, é a hora dos fantasmas.

Por que veio? Perguntou Pessoa.

Porque, se você se for, temos algumas coisas a nos dizer, respondeu Álvaro de Campos, eu não sobreviverei a você, partirei em sua companhia, e antes de nos lançarmos na escuridão temos algumas coisas a nos dizer.

O diálogo acima foi transcrito da obra Os três últimos dias de Fernando Pessoa, uma ficção escrita pelo italiano Antonio Tabucchi retratando a morte do poeta português e os três últimos dias de sua vida, quando este recebeu a visita de seus três heterônimos: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.

A ficção é sempre fascinante porque é capaz de colocar a verdade em segundo plano. É bom, às vezes, não ter que se preocupar com a verdade; o problema é que os homens fizeram dela olhos perturbadores que estão em todo lugar a cobrar de nós a coerência a todo instante.

Penso que seria muito melhor se vivéssemos em um mundo menos verdadeiro e mais sincero. Isso mesmo, sinceridade nada tem a ver com a verdade. Há pessoas que são notórias por dizer a verdade, em todo tempo, sem se importar com os estragos que esta verdade irá provocar. Não são sinceras.

A sinceridade é algo mais sublime. Olha para o outro antes de mais nada e torna doces as palavras. Os apaixonados são sinceros, não necessariamente verdadeiros.

Voltando ao texto, quando Fernando Pessoa recebe a visita de Álvaro de Campos ele pergunta sobre a razão do encontro. Pessoa em breve iria morrer, está é a trama do diálogo, e, Álvaro de Campos sabia que não sobreviveria a tanto, morreria junto pois era a expressão do desejo do outro: "...partirei em sua companhia..."

Quando se é a expressão do desejo de alguém perde-se a capacidade de sobreviver. A ficção conta que após ter dialogado com seus três heterônimos, Pessoa morreu. Dá a ideia de que a morte é algo que só vem quando a vida está completa. Estranha sensação porque há outros momentos em que a vida parece estar completa e a morte é o menos desejado deles.

Quando se ama, por exemplo, sente-se a impressão de que a vida está completa. Nada mais interessa, só o amor. Talvez seja por isso que a história de Romeu e Julieta cause tanto fascínio nos apaixonados: um amor coroado pela morte.

Os poetas são de outro tipo: incompletos. Não se pertencem, são do outro que se chama poesia, a arte de encantar com o entudiasmo dos olhos. Seduzir pela palavra, retórica, o não-poder.

Há algo que me fascina na literatura. Chamo de magia, magia das palavras. O literato é um mago das palavras. O mago prova desta magia antes de todos e a partir daí passa a enfeitiçar os demais...é isso que a literatura nos dá...um pote de magia.

"Está na hora de partir, é hora de deixar esse teatro de imagens que chamamos de nossa vida. Se soubesse as coisas que vi com os óculos da alma, vi os contrafortes de Órion, lá no alto do espaço infinito, andei com estes pés terrenos pelo Cruzeiro do Sul, atravessei noites infinitas como um cometa reluzente, os espaços interestelares da imaginação, a volúpia e o medo, fui homem, mulher, velho, menino, fui o plácido Buda do Oriente, do qual invejamos a calma e a sabedoria, fui eu mesmo e os outros, todos os outros que podia ser, e tudo porque a vida não basta..." (F. Pessoa)

Este é o nosso pote de magia...

Paulo Roberto Pedrozo Rocha 


domingo, 18 de abril de 2010

A Lua, o Pentecostes e o Entardecer

O tempo traz consigo seus encantos. Há alguns que são especiais. Para mim, há uma mística toda especial nas relações de tempo. Contece, por exemplo, em todos os entardeceres: já reparou que o entardecer é um encontro? É um abraço de dois infinitos...a luz do dia que se despede e a escuridão da noite que se aproxima. Trata-se de um encontro especial com um colorido que só se pode alcançar na união da noite com o dia.

Outra magia revela que os entardeceres nunca são iguais. Em alguns, o sol parece fazer um pouco de manha para ir embora; insiste em ficar, como que para dizer adeus. Em outras ocasiões, o entardecer é nostálgico, fazendo lembrar o dia que foi, trazendo saudades que à luz da partida ficam ressaltadas.

De certo era bem curiosa a vida dos antigos astrônomos que nos séculos medievais olhavam para a linha do horizonte tentando descobrir onde se escondia o sol todas as noites. Aliás, perseguir o infinito não é especialidade da ciência. Sabe-se, por exemplo, que a luz do sol é muitas vezes maior que a dimensão do planeta terra, de modo que mesmo em sua rotação planetária, deveria ficar sempre iluminado pelo astro solar.

Mas um dia alguém inventou a noite, contrariando todos os cálculos possíveis. Como não sou cientista é bem possível que alguém me apresente razões para a existência da escuridão. Mas aos teólogos as razões não importam, vale mais a poesia; e é bem provável que Deus tenha criado a noite só para dar o espetáculo do entardecer.

Existem pessoas que são semelhantes ao anoitecer. São belas e se tornam ainda melhores num encontro com alguém. Por isso, Aristóteles ensinava que a amizade é a arte de se fazer deuses. Encontrar alguém é produzir a beleza de uma reunião de infinitos.

Faz tempo, muito tempo que em um entardecer de primavera surgiu um colorido especial. No Concílio de Nicéia, no século IV d.C., ficou decidido que a Páscoa, festa maior do cristianismo, seria sempre celebrada no primeiro domingo após a lua cheia que segue o equinócio de Primavera. Um equinócio é um fenômeno natural: registra uma igual duração do dia e da noite.

No ano há duas ocorrências: a primeira em março e a segunda em setembro. Como a primavera no Oriente ocupa a primeira parte do ano, a Páscoa é sempre celebrada em meados de março e abril, pois o equinócio oriental de primavera ocorre por volta de 21 de março.

Esta é a razão pela qual a Páscoa não tem uma data fixa como o Natal. É preciso aguardar a visita da lua após um entardecer perfeito...o encontro do infinito.

Cinquenta dias após a Páscoa é celebrado o Pentecostes. Para os cristãos trata-se da vinda do Espírito Santo; não sem antes ouvir a Lua. E pensar que tudo nasce de um entardecer!

Curioso que uma das mais importantes festas do cristianismo não nasceu de uma verdade categórica. Primeiro veio a luz com sua alegria abraçar a escuridão em seus mistérios; depois o entardecer que consegue oferecer o maior de todos os espetáculos: a perfeita visão da lua. Ouvindo a lua e suas estrelas, os cristãos celebram a Páscoa, o Pentecostes e tudo se faz em festa na forma de poesia, como escreveria Olavo Bilac, na quadra XIII do poema Via Láctea...

"Ora direis ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!
 E eu vos direi, no entanto,
 Que, para ouví-las, muita vez desperto
 E abro as janelas, pálido de espanto...

 E conversamos toda a noite, enquanto
 A via láctea, como um pálio aberto,
 Cintila, e, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
 Inda as procuro pelo céu deserto.

 Direis agora: tresloucado amigo!
 Que conversas com elas? Que sentido
 Tem o que dizem, quando estão contigo?

 E eu vos direi: amai para entendê-las!
 Pois só quem ama pode ter ouvido
 Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Paulo Roberto Pedrozo Rocha

domingo, 25 de outubro de 2009

Uma Alegria Acompanhada

Mas o que é o amor? Perguntava Baruch Spinosa em seu livro Ética. A resposta, ainda que sugerida, era: O amor é uma grande alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior. Não pode haver amor sem que os olhos imaginem a figura daquele que se ama. Não há amor solitário, amor de si. A este, chamam de egoísmo.

Ao ler o poema escrito na primeira carta dos Coríntios, capítulo 13, encontramos uma fala sobre o amor. Poema que já tematizou outro poeta, Camões, em uma quadra do Lusíadas. Amor que os gregos conheciam em três diferentes versões, todas igualmente enigmáticas e encantadoras.

A primeira destas versões é o amor que indicava a necessidade de possuir: Eros. Platão declara no Banquete: O que não tenho, o que me falta, o que está fora de mim, estes são os objetos do amor... O amor erótico é o amor que precisa possuir, que o é justamente porque encontrou no outro aquilo que faltava, o que dá sentido à vida. No mundo de Eros é preciso possuir; nele deuses como ciúmes e a ausência são alimentados. Alimentados e temidos.

Mas há outro modo de falar sobre o amor: philia. Este é um amor que prefere a fidelidade à posse. Sua melhor tradução para o português é amizade. Para ser amigo, é preciso amar, é preciso ser fiel. Se Eros induz à paixão, ou seja, ao sofrimento, philia conduz ao prazer: Amar é regozijar-se, ensinava Aristóteles.

Um terceiro modo de pronunciar amor ainda é dito no mundo dos gregos: agápe. Este é um amor supremo, capaz de superar as limitações impostas pela posse ou pela fidelidade: é amor enquanto amor, é amor dos deuses.

Mas o que acontece com a alegria, identificada pelo amor, quando não há a ideia de uma causa exterior? O que é o amor quando não há alguém para ser lembrado? Sem a causa exterior, o amor se transforma em melancolia. A melancolia é o mal que aflige os amantes que não têm a quem amar.

No mundo da teologia, o falar sobre os deuses, há um bom exemplo disso. Mas o que amo quando digo que amo o meu Deus? Perguntava inquietamente o teólogo/poeta Agostinho de Hipona. Em palavras doces, como uma declaração de amor, Agostinho respondia: ‘Amo a luz, a voz, o perfume, o alimento e o abraço, quando amo o meu Deus: a luz, a voz, o odor, o alimento, o abraço do homem interior que habita em mim, onde para a minha alma brilha uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não destrói, de onde exala um perfume que o vento não dissipa, onde se saboreia uma comida que o apetite não diminui, onde se estabelece um contato que a sociedade não disfaz. Eis o que amo quando amo o meu Deus.’

Ainda hoje nosso olhar procura a quem amar. Para uns a fuga da melancolia, para outros a descoberta de que no mundo interior, lá onde as coisas estão bem guardadas há a figura de um rosto que vai sempre lembrar a beleza de um sorriso que denuncia a existência de alguém, tão próximo que mora dentro do ser, lá onde a paixão e a fidelidade se escondem e tramam seus segredos.

Paulo Roberto Pedrozo Rocha

domingo, 14 de junho de 2009

Você conhece algum Pardal?

"Aquele era um país especial! Lugar onde todos tinham um sonho. Ter um sonho torna as pessoas especiais e diferentes; elas passam a viver e a agir de acordo com este sonho. São poetas, artistas...enfim, sonhadores. Na verdade, era mais do que um sonho: era um sonho em comum.
Qual era? Bem, todos sabem que os sonhos não podem ser contados de uma só vez. Eles são enigmáticos e misteriosos: disto vivem os sonhos, de enigmas e mistérios. Naquele lugar todos sabiam que deveriam olhar para a terra e se apaixonar por ela. A terra era a mãe carinhosa que retribuía generosamente os carinhos que lhe eram feitos por seus filhos. No mundo onde todos se encantam com a terra há uma classe especial de pessoas, de magos, feiticeiros dos quais depende o futuro: eram os camponeses.
Difícil imaginar que no mundo da tecnologia e da modernidade alguém ainda escolha o camponês como classe especial. Mas no lugar de que estamos falando, os camponeses sabiam como ninguém acariciar a terra e mostrar como o futuro pode manifestar um 'advento' no presente.
Estes magos camponeses eram mais do que especiais: eram símbolos. Estavam organizados, viviam organizados. Compunham uma espécie de clero chamado 'Liga Camponesa' e nela estampavam um ideal de felicidade. O que é felicidade? Perguntavam os professores às crianças na escola elementar. Felicidade é poder um dia se tornar camponês e aprender a acariciar a mãe terra para viver de seus caprichos e ternuras.
Assim se passavam os dias e os anos. Esta liturgia se repetia a cada geração e o povo daquela pátria partilhava o sonho e o ideal movidos pelo desejo de estar juntos. Até que um dia, algo estranho aconteceu.
Apesar de terem se preparado para enfrentar o inimigo externo, mesmo que este viesse de uma super potência em armamentos de qualquer natureza, os habitantes daquele país descobriram um inimigo inesperado: o pardal. O pardal, embora aparentemente inofensivo, era um inimigo voraz porque comia grãos.
A explicação era bastante simples: no país da magia camponesa, o trabalhador da terra era o sacerdote e o ideal de felicidade. Todo mago, feiticeiro, sacerdote ou religioso (na essência eles se confundem) faz sua magia e desta magia o povo ao seu redor se alimenta. É básico: um apaixonado, por exemplo, é um mago das palavras. As pessoas o ouvem e se alimentam de suas palavras. Esta é a garantia do seu prazer. Assim como o alquimista produz poções mágicas e os feiticeiros fervem em imensos caldeirões sopas de desejos que fazem arrepiar até o último fio de cabelo.
Se o mago é o camponês, o produto de sua magia é o que a terra devolve após ser acariciada, ou seja, os grãos. O pardal vem e rouba os grãos. Traduzindo: o pardal é alguém que rouba os sonhos e muda as coisas quando tudo parecia estar indo bem. Tenho certeza que todos nós conhecemos muito bem esse tipo de pássaro: alguém que rouba o sonho e faz da nossa vida um mundo encantando de surpresas.
Logo, era preciso eliminar esta possibilidade. A solução também foi simples: eliminar todos os pardais. A ordem foi dada e a partir de então, todos os pardais foram mortos e uma lei foi proposta no céu daquele país: nestes ares pardal não voa! Triste pretensão aquela. Pássaros são iguais aos amores. Não é possível dar ordens ou decidir a respeito. Ninguém pode dizer: não voe por aqui!
Depois disso, os camponeses puderam continuar sua magia. O sonho de felicidade nunca se realizou completamente porque, como todos sabem, sonhos se alimentam de desejos e desejos crescem na ausência - só desejamos aquilo que não temos. Por isso, sonhos foram feitos justamente para serem sonhados e não realizados.
Um dia, alguém ouviu lá no fundo da existência uma canção. Era o canto de um pardal adormecido. Este alguém resolveu que era preciso fazer algo: seria possível trazer os pardais de volta? Em outras palavras: era melhor partilhar a alegria inusitada do pardal do que a certeza de um cesto cheio de grãos. Poeticamente: de que vale a segurança se em troca não podemos viver um grande amor?
E eles começaram a voltar. Logo os céus estavam povoados destes voadores. Os magos camponeses até que olharam com encanto. Agora, os símbolos eram outros - os pardais eram sinais de liberdade voando no céu da imaginação; são grandes amores que não podem ser aprisionados (pardais não sobrevivem às gaiolas) e trazem consigo a misteriosa e enigmática insegurança que os torna ainda mais irresistíveis.
Desta vez não foi promulgada nenhuma lei. Apenas uma descoberta: há um pardal morando dentro de cada um. Para revelá-lo, basta silenciar o espírito, fechar os olhos e aceitar a troca da segurança da normalidade pelo inusitado do amor. Com certeza, ele desperto voltará a voar nos céus da imaginação revelando que os amores podem até adormecer, mas uma vez despertos fazem o mundo habitado um lugar muito mais interessante para se viver."
Paulo Roberto Pedrozo Rocha
O socialismo chinês tratou de eliminar os pardais de seu país uma vez que eles eram taxados de 'pássaros nocivos', pois, como eles comiam grãos, seriam nocivos à utopia camponesa que os comunistas queriam construir. Atualmente, alguns ornitologistas trabalham na reabilitação da vida dos pardais na China, entre eles o chinês Zheng Guangmei que ganhou notoriedade após explicar este procedimento e assumir o erro consequente deste modo de atuação.